Por Marco Gouveia, consultor de marketing digital, CEO da Escola de Marketing Digital e especialista em capacitar líderes para os desafios da economia digital.
Dizem que liderar é saber delegar, mas quem carrega o peso da decisão final sabe que isso é apenas metade da história. Podemos ter os melhores conselheiros, as equipas mais brilhantes e os relatórios mais detalhados à nossa frente, mas há momentos em que o ruído das opiniões se cala e ficamos sozinhos. É o silêncio da cadeira da ponta da mesa.
Ao longo de duas décadas a gerir os meus próprios negócios e a observar o interior de centenas de empresas, percebi que a maior lacuna da gestão moderna não é a falta de tecnologia, é o medo de abraçar esta solidão. Tentamos “higienizar” a liderança com processos e métricas, mas a verdade é que gerir organizações é um ato visceral. É deitarmo-nos com o peso das famílias que dependem da nossa visão e acordar com a coragem de ajustar o rumo quando o mercado, lá fora, parece querer levar-nos tudo.
Esta solidão é facilmente confundida com isolamento, mas são coisas distintas. O isolamento é um erro de ego; a solidão da decisão é um imperativo de responsabilidade. Não podemos repartir a autoria do risco final. No entanto, é precisamente nesse espaço solitário que se prova o nosso valor: a capacidade de manter o sangue frio para não sermos reféns de tendências passageiras e a humanidade necessária para não vermos as nossas equipas apenas como recursos num Excel.
Uma empresa é, e será sempre, o reflexo das suas pessoas. Se descuidamos o lado humano porque estamos demasiado ocupados com a estratégia, perdemos o barco. É um erro comum esperar pelo pedido de demissão de um talento para lhe oferecer o que ele já merecia há anos. A retenção não se faz no momento da saída; faz-se no dia a dia, na capacidade de um líder sentir o pulso da sua organização mesmo quando está focado no horizonte.
Aprender com os nossos próprios erros é o caminho mais longo e doloroso. No final do dia, a verdadeira inteligência estratégica de um gestor está na humildade de aprender com os erros dos outros, em partilhar estas dores em comunidades de pares e em admitir que, embora a decisão seja solitária, o percurso não tem de o ser. Liderar não é sobre ser infalível, é sobre ter a resiliência de aguentar o peso da cadeira da ponta para que todos os outros possam sentar-se à mesa com confiança. No fundo, é essa a nossa missão. E, embora não seja fácil, é a única forma de construirmos algo que realmente perdure.




